Sábado, 11 de Julho de 2009

Carnaval e futebol - José Chagas

Carnaval e futebol,
futebol e carnaval,
mais nada, além desse rol
de esplendor nacional.

Eis tudo o que nos consola,
que nos alegra e inebria,
que tanto é o poder da bola
como o poder da folia.

Não fosse isso, o país
não suportaria mais
a atuação infeliz
dos políticos venais.

Chega a ser fenomenal
o que o pais alcançou,
com um grito de carnaval,
com um longo grito de gol.

E é essa a glória maior
do país, perante o mundo,
o que temos de melhor,
de mais belo e mais profundo.

O que garante o assomo
do Brasil como ele é,
na alegria do Rei Momo,
na glória do Rei Pelé.

poema inédito

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Os sonhos realizados do poeta maranhense José Chagas

Artigo publicado no jornal "O ESTADO DO MARANHÃO"
no dia 28/06/09


Nauro Machado

Especial para o Alternativo


Como pela mão de um Bilac a
quem coube, longe do bulício
das ruas, o milagre da mais alta
poesia a vir rolando após
para as congeminadas mãos
molhadas com o sangue de
Cristo, o que ocorreu com o genial
Jorge de Lima, e à semelhança
de um Xavier de Maistre
a viajar pelo mundo em volta
do seu quarto, ou de um Amiel
a revolutear em torno dos infindáveis
problemas estéticoexistenciais
expostos no seu
“Diário Íntimo”, o poeta José
Chagas, há muito sabedor de
que “a melhor viagem é a de
quem fica “, escreve milhares e
milhares de versos, longe do
bulício das ruas, e no refluir das
ondas humanas de uma reclusa
praia a inexaurir-se jamais,
graças ao inesgotável das suas
invisíveis marés.
Longe pois, já agora muito
longe dos ruídos azucrinantes
das ruas onde outrora retumbaram
hinos - por ele ainda
ouvidos no mirante da sua
memória e nos becos e praças
por onde também absorveu
mimeticamente a voz do povo
trazendo-lhe a soma fenomenológica
do mundo -, o poeta
José Chagas, no desvelamento
cada vez maior daquela Esfinge
sentada sobre um trono de
pó ou eternidade, navega
solitário pelas águas heraclitianas
de outros oceanos, com
os ouvidos atentos ainda à
Odisséia dos seus pés andando
sempre sobre o calcinado chão
da sua Piancó natal, de onde,
pelos seus olhos outrora enxutos,
já fazia crescer as águas de
um açude a também espraiarse
após pelas águas do litoral
maranhense.
Não posso agora, apesar de
saber que navegar é preciso, no
ensinamento daquele poeta
com o qual Chagas divide tantas
coisas afins e não necessariamente
comuns, recapturar aqui
o somatório de todos os livros
por ele publicados, na infinitude
temporal de suas páginas, pelo
trabalho ininterrupto dos dias e
das noites com que - repito - no
mirante e nos quartos da sua vida,
intactos e parados no ar, e
vivendo-os à maneira monástica
do autor de ‘ A última canção
do beco”, escreveu sua verdadeira
biografia, escoimada da
circunstancialidade transitória
das coisas vãs, no balbucio inócuo
das vozes com subalternos
propósitos e ruídos.
Pois Chagas, exemplo de
solitário homem coletivo,
sabendo que em si subjaz a incoercível
necessidade ética a
mover e abrigar o cidadão
exemplar que ele é, constrói, simultânea
e paralelamente,
uma obra verbal de recolhida
prece, na solicitude de um verbo
ofertado à solidão de quem
sempre soube habitá-lo com a
limpeza do seu másculo compromisso
social, sem omitir contudo,
para vergastar-lhes os
crimes, aquilo que sabe perpetrado
pelas mãos e bocas de
homens, “privados e públicos”,
que melhor fora se já amputados
estivessem até mesmo
daquilo que as próprias feras repeliriam
em suas garras ou bocas
sem verbo.
Seu último livro, este “Sonho
irrealizado”, que vem somar-se a
mais de dez outros títulos também
inéditos, comprova sua inexaurível
força criadora, sem
tréguas ou possível solução, no
afrontamento daqueles problemas
que constituem o centro da
privacidade iniludível a cada ser
humano: a solidão e o amor, a fé
ou a descrença em Deus, a infância
e a velhice, o chão natal e o
exílio, com a repetição obsessiva
dos seus símiles mais recorrentes,
feitos pela junção antitética
do interior com o exterior,
do próximo com o longínquo,
o que se pode observar sobretudo
em alguns dos seus
passos antológicos, como neste:
“ o mar está longe,
mas seu existir nos banha.”

Ou ainda na quase totalidade
do seu “Os Canhões do silêncio”,
cujos versos ecoam como ecos de
uma história coletiva apreendida
e contada pelo silêncio de quem
se sabe ser a própria voz do seu
destino pessoal, acrescida pela
invulgar capacidade que o faz, na
introjeção do seu abissal silêncio,
ressuscitar os sons e as vozes da
nossa verdadeira História.
José Chagas, neste “Sonho irrealizado”
atinge em seus versos
o necessário apaziguamento de
uma sede de solidão somente saciada
quando na mesa posta para
a refeição de todos.
E essa refeição de todos, onde
a morte ocupa a cabeceira da
mesa, faz-se o alimento maior e
mais necessário para todos nós,
que temos o privilégio de privar
com essa lavoura azul de um
homem que trouxe, desde que
aqui aportou anos depois, vindo
do seu chão paraibano, a “cachorra
da poesia “, como disse em seu
discurso de posse na Academia
Maranhense de Letras.
Sou um homem feliz por
haver convivido tão proximamente
com o poeta José Chagas,
esse José sem chagas, exceto as
Chagas do Verbo com que vem
ainda agora dar continuidade a
uma das mais altas vozes da poesia
brasileira contemporânea.
E com que alegria da mais pura
tristeza, li nesse livro as estrofes
sobre o nosso grande pintor
Antonio Almeida, as quais se constituem
na mais límpida e verdadeira
biografia de quem, como
esse querido pintor, soube ver
ainda em vida, com os seus olhos
finais de cego, a verdadeira luz da
eterna vida presente apenas na
presença de Deus.

NauroMachado é poeta

Domingo, 28 de Junho de 2009

Poema - José Chagas

De Deus não se sabe nada
e é melhor mesmo que não.
Deus não é coisa ensinada
por qualquer religião.

A fé é que cria Deus,
não é Deus que cria a fé,
e a crer nos mistérios seus,
Deus não existe, Deus é.

É... para quem nele creia,
não é para o que é ateu,
que Deus não planta na areia
o grão dos poderes seus.

Por entre flores e lodos,
entre perfume e bodum,
Deus semeia para todos,
mas não para cada um.

Porque sempre há os que pensam
que Deus é dúbio em seu dom,
que Deus é castigo e bênção,
e é tão ruim quanto bom.

É pau para toda obra
e se faz dele o que quer,
mas ora falta, ora sobra,
nas mãos de um cristão qualquer.

Ao que parece é que Deus
não é para todo dia;
cansado dos fariseus,
às vezes se refugia.

Ou parece que descansa,
desde quando fez o mundo
e deixou para a esperança
o trabalho mais profundo.
Xxx

Poema inédito

Sábado, 20 de Junho de 2009

Dezenove de Junho - José Chagas

O poeta homenageia a sobrinha,Deusana,pelo seu aniversário, e espera contar com a sempre gentil participação de todos os amigos.



Aniversariar é ainda
um modo de ser e estar,
de mostrar que a vida é linda
e está posta em seu lugar.

Mas há quem goste, ao contrário,
de fazer anos sozinho,
tendo o seu aniversário
como um evento mesquinho.

Mas enfim, queira ou não queira,
cada qual tem o seu dia,
que é marco da vida inteira
e é por onde se inicia.

O dia do aniversário
de Deusana é dela e é nosso;
sou o primeiro usuário
que dessa emoção me aposso.

E é de nós todos também,
amigos, irmão, tios, pais,
pois esse é mais do que um bem,
por seus laços fraternais.

E essa alegria se expande,
não só porque é maior,
nem só porque seja grande,
mas por ser bela e melhor.

Esta é uma data e uma dita
que Deusana tem de seu,
e ela é uma graça infinita
que a natureza nos deu.

É um dia que é mais que um dia,
por ser divina semana
que se estende e se alumia
no coração de Deusana.

Pois quem aniversaria
na semana de São João,
sente uma dupla alegria,
num duplo fervor cristão.

São João é brasa, é fogueira,
é a labareda do ano
e é ritual que se queira
tão sagrado quão profano.

Há bandeirolas no ar,
nos corações e nas almas:
São João a nos enfeitar
com o brilho das noites calmas.

Há muitos balões de sonhos
de intensas colorações;
sobem, mas voltam risonhos
para os nossos corações.

Pois que a beleza se alteia
tal como um balão junino
que deixa a nossa alma cheia
da paz de um sonho divino.

Tem-se a humana natureza
festiva em seu dom profundo;
basta uma alegria acesa
para iluminar o mundo.

São João festeja Deusana,
no aniversário feliz,
com sua luz soberana,
que a própria data bendiz.

E há algo que nos pertence,
que é nosso e que sempre foi,
pois que a alma maranhense
ecoa no bumba-boi.

E quem aniversaria
tão perto assim de São João,
sobe em balão de alegria,
desce em nosso coração.

Bate a invisível matraca,
bate o pandeirão do sonho
e vê que a vida destaca
um mundo belo e risonho.

Em toda a vida eu suponho
que nada existe mais belo
que ver o real e o sonho
postos num feliz duelo.

O sonho se faz real,
o real em sonho se faz,
e se dá o festival
da completa humana paz.

Deusana é o quanto de humana
pode ser uma pessoa;
só uma Deusana é Deusana,
a que São João abençoa.

Qualquer um de nós, contente,
percebe, em tom solidário,
que ela mesma é que é o presente
de seu próprio aniversário.

Nós somos presenteados
por sua dádiva imensa,
por seus preciosos dados
de alegria e fé e crença.

Pois aniversariantes
somos todos, nesta data,
solidários e constantes,
com nossa presença grata.

Uma fogueira ilumina
a alma de todos nós,
na celebração junina,
cantada numa só voz.

Não esqueçamos também
que em São João também se come
e se bebe o que convém
tanto à sede quanto à fome.

E há o que entra pela boca:
bolo, canjica, pamonha,
pois ninguém tem fome pouca
nem vive só do que sonha.

Festejemos a alegria
desta data e deste mês,
pois só se aniversaria,
em cada ano, uma vez.

Junho é mês de muitos santos,
João, Pedro, Antônio, Marçal,
e os benefícios são tantos
que o mês é celestial.

É o mês que divide o ano
em suas duas metades,
mas une o sentido humano
que reina nas amizades.

E o dezenove de junho,
data jamais esquecida,
traz um bem que testemunho
como uma glória da vida.

Deusana louve São João,
louve São Pedro também;
bênçãos dos dois cairão
sobre nós todos. Amém.



Poema inédito








fontes:imagem
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Cigarra e formiga - antifábula

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Fala-se mal da cigarra,
fala-se bem da formiga,
pois que uma canta e farra
e outra em labor se fatiga.

Diz-se que uma só gasta,
e a outra guarda o que tem,
e em sua riqueza vasta
não quer ajudar ninguém.

É uma história que se narra,
sem graça, de tão antiga,
e nela nem a cigarra
se envolve, nem a formiga.

Ambas nada têm com isso
que seu La Fontaine inventa,
com um fundo moral cediço
de uma fábula odienta.

Cada qual cumpre a missão
que lhes deu a natureza;
nada têm com o que dirão
contra a cigarra indefesa.

Querem por força lançar
cigarra contra formiga,
a fingir-se um falso ar
de tradição inimiga.

Cigarra e formiga juntas
vivem, dando o que falar,
mas não respondem perguntas
de um mundo raso e vulgar.

Elas estão muito acima
do que nossa vida engana,
e nenhuma se aproxima
de nossa atitude humana.

Não é com cigarra alguma
nem com formiga qualquer
que alguém, a seu modo, assuma
a tolice que quiser.

Sem nunca cometer falha,
sem descuidar-se um instante
é que a formiga trabalha
para que a cigarra cante.

O canto é tão necessário
quanto o labor. E entre os dois
não se sabe, em seu fadário,
quem vem antes ou depois.

O homem, com braço e garganta,
suaviza a sua batalha,
e trabalha, enquanto canta
e canta, enquanto trabalha.

O canto é irmão do labor
e, irmãos, se dão por completos,
jamais iriam propor
uma disputa de insetos.

Deixe-se a cigarra em paz,
deixe-se em paz a formiga,
e seja o homem capaz
de amar trabalho e cantiga.

Não há povo que não cante
nem povo que não trabalhe,
e a poesia é reinante,
no todo em cada detalhe.
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Poema inédito

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Tabuada de memória - José Chagas

Tabuada de memória
José Chagas
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Volto agora à minha terra,
como quem de longe vem
e o seu caminho não erra,
porque o conhece bem,

porque, como já foi dito,
ninguém se perde na volta,
e sabe bem do infinito
a ave que as asas solta.

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Voltei para recordar,
que recordar é viver
um sonho particular,
misto de angústia e prazer.

Que recordar não é só
chorar o que não há mais,
nem é recolher o pó
de antigos restos mortais.

É deixar de lado o mundo
de superfície ilusória,
que eterno é o que está no fundo
de nossa própria memória.

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Eu vi o nada como é,
depois de tudo haver sido
e senti sob o meu pé
o pó do que foi vivido.

Senti as dores ferinas
de todo o passado meu,
que duro é pisar as ruínas
da casa onde se nasceu.

Duro é ouvir nas pedras mortas,
que antes foram vitais,
o ranger de velhas portas
que já não existem mais.

Duro é ver com o peito em ânsia
sombras que vão e que vêm,
como os fantasmas da infância
lembrando alguém, sem ninguém.

Duro é ouvir o eco das falas
que entre balanços de redes
ouvi nas antigas salas,
agora chãos sem paredes,

chãos reduzidos a escombros
que nunca mais se erguerão,
e eu sentindo nos meus ombros
o fardo da solidão.

Ali olhei-me no espelho
do tempo e me vi menino
brincando no chão vermelho
onde plantei meu destino.

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A morte fica presente
no lugar do que se finda,
por mais que o mundo a afugente
é ela que fica ainda.

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Eu vi a morte parada
em cada canto do chão
onde não havia nada
do que outrora amei em vão.

Vi a morte em cada pedra,
nos cacos das velhas telhas,
vi até como ela medra
ao sol se abrindo em centelhas.

A morte é proprietária
do chão que o mundo lhe deu
e em sua reforma agrária
cada um tem o que é seu.

Ela não tem compromisso
nem com rico nem com pobre,
seu caso é estar a serviço
de tudo o que a terra cobre.

Ela varre a terra inteira,
mas nunca será varrida
e sempre se posta à beira
do precipício da vida.

Na casa de minha infância
a morte tudo varreu,
varreu até a distância
entre mim e o que sou eu.

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Tudo se foi lentamente
durante anos e anos,
sob a perdida semente
do sonho e dos desenganos.

Ficou a morte sozinha
dona de um poder maior,
e nenhuma ilusão minha
pôde manter-se em redor.

Ficou a morte da terra,
ficou a morte da casa,
porquanto a morte se encerra
no próprio chão que ela arrasa.

A morte é tudo o que sobra
de tudo quanto termina,
ela é sua própria obra
e a sua própria oficina.

E hoje tudo é só tristeza
de não existir mais nada
além da saudade presa
em si mesma e desolada.

A solidão é tão densa
que eu lhe sinto a solidez
pesando como uma prensa
sobre o que o tempo desfez,

ou pesa como uma porta
que se fecha sobre mim,
fantasma entre coisa morta
à espera do próprio fim.

E afinal tudo o que resta
é o não restar coisa alguma,
na abstração manifesta
do que se desfez em bruma.

Não há nem mesmo sinais
da mais longínqua espelunca,
e nunca mais, nunca mais
e nunca mais e mais nunca.

Fragmento do livro Tabuada de memória
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Domingo, 24 de Maio de 2009

Fragmento do poema Os canhões do silêncio - José Chagas


Igreja do Desterro - São Luís - MA


Mirante - São Luís - MA



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O mapa da fé
só mostra aqui
a linha devota do vento
e o horizonte caído aos pés do azul
como um crente abraçando
a cintura de Deus

Sem falar nas torres do Desterro
e de São Pantaleão
ao sul e ao leste do mirante
e que derramaram sinos
sobre quantas manhãs antigas
deixaram o passado ao alcance dos olhos
como uma paisagem de agora
para uma janela de ontem

O sopro de Deus
sustenta em pé na memória
o barro primeiro
que moldou a igreja no tempo

Os telhados congregam o ritmo
dos vôos
e a cidade é posta em frente à lembrança
como um distante mover de asas
se acomodando no pouso

Desde quando a janela me ensina o espaço
desde quando me ensino a ser eu
desde quando o silêncio me dá sua razão
eu não sei de mim senão que me perco
no uso do que me rodeia
como quem solto num deserto
não sabe livrar-se dele?

Ah é preciso saber quanto
de São Luís recai sobre
uma pessoa em estado de mirante

É preciso conter a cidade
no seu avanço contra o olho
que a espreita em trincheira de sonhos
mas se abre cego de si mesmo
perdida visão emborcada sobre o mistério

O vento na pele
o tempo na alma
a carga do passado exigindo
do osso e das ruínas
o equilíbrio de sua razão
porque recordar é uma força
que move o vento para trás
e pode romper o eixo da vida
quebrar em desastre o trem dos séculos

A cidade foi possuída
pelo tempo
está grávida
de seu passado
e dependendo de nós
poderá parir um demônio
ou um anjo

Poderá errar no verbo e na carne
sem distinguir
entre
corpo e
porco
ou entre
alma e
lama

Sem distinguir entre
grito e
trigo
na hora da fome
muro e
rumo
na hora de ir
furto e
fruto
na hora do lucro

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Fragmento do livro Os canhões do silêncio
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