Mostrando postagens com marcador poema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poema. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Pecado - José Chagas

É necessário o pecado
para que haja perdão
e um deus que seja rezado
por quem se diga cristão.

O pecado é que nos faz
suportar melhor a vida;
só ele mesmo é capaz
da boa ação proibida.

Adão, que foi o inventor
do pecado original,
deu-nos o dom promissor
de tirar o bem do mal.

Sua provisória estada
no paraíso nos trouxe
a certeza consagrada
de como pecado é doce.

E a proibida maçã
conserva ainda o sabor
em nossa gula cristã,
como o fruto tentador.

Só que a maçã hoje é cara,
serpente alguma a oferece,
e o pecado só se encara
por força de alguma prece.

poema inédito

domingo, 28 de junho de 2009

Poema - José Chagas

De Deus não se sabe nada
e é melhor mesmo que não.
Deus não é coisa ensinada
por qualquer religião.

A fé é que cria Deus,
não é Deus que cria a fé,
e a crer nos mistérios seus,
Deus não existe, Deus é.

É... para quem nele creia,
não é para o que é ateu,
que Deus não planta na areia
o grão dos poderes seus.

Por entre flores e lodos,
entre perfume e bodum,
Deus semeia para todos,
mas não para cada um.

Porque sempre há os que pensam
que Deus é dúbio em seu dom,
que Deus é castigo e bênção,
e é tão ruim quanto bom.

É pau para toda obra
e se faz dele o que quer,
mas ora falta, ora sobra,
nas mãos de um cristão qualquer.

Ao que parece é que Deus
não é para todo dia;
cansado dos fariseus,
às vezes se refugia.

Ou parece que descansa,
desde quando fez o mundo
e deixou para a esperança
o trabalho mais profundo.
Xxx

Poema inédito

sábado, 20 de junho de 2009

Dezenove de Junho - José Chagas

O poeta homenageia a sobrinha,Deusana,pelo seu aniversário, e espera contar com a sempre gentil participação de todos os amigos.



Aniversariar é ainda
um modo de ser e estar,
de mostrar que a vida é linda
e está posta em seu lugar.

Mas há quem goste, ao contrário,
de fazer anos sozinho,
tendo o seu aniversário
como um evento mesquinho.

Mas enfim, queira ou não queira,
cada qual tem o seu dia,
que é marco da vida inteira
e é por onde se inicia.

O dia do aniversário
de Deusana é dela e é nosso;
sou o primeiro usuário
que dessa emoção me aposso.

E é de nós todos também,
amigos, irmão, tios, pais,
pois esse é mais do que um bem,
por seus laços fraternais.

E essa alegria se expande,
não só porque é maior,
nem só porque seja grande,
mas por ser bela e melhor.

Esta é uma data e uma dita
que Deusana tem de seu,
e ela é uma graça infinita
que a natureza nos deu.

É um dia que é mais que um dia,
por ser divina semana
que se estende e se alumia
no coração de Deusana.

Pois quem aniversaria
na semana de São João,
sente uma dupla alegria,
num duplo fervor cristão.

São João é brasa, é fogueira,
é a labareda do ano
e é ritual que se queira
tão sagrado quão profano.

Há bandeirolas no ar,
nos corações e nas almas:
São João a nos enfeitar
com o brilho das noites calmas.

Há muitos balões de sonhos
de intensas colorações;
sobem, mas voltam risonhos
para os nossos corações.

Pois que a beleza se alteia
tal como um balão junino
que deixa a nossa alma cheia
da paz de um sonho divino.

Tem-se a humana natureza
festiva em seu dom profundo;
basta uma alegria acesa
para iluminar o mundo.

São João festeja Deusana,
no aniversário feliz,
com sua luz soberana,
que a própria data bendiz.

E há algo que nos pertence,
que é nosso e que sempre foi,
pois que a alma maranhense
ecoa no bumba-boi.

E quem aniversaria
tão perto assim de São João,
sobe em balão de alegria,
desce em nosso coração.

Bate a invisível matraca,
bate o pandeirão do sonho
e vê que a vida destaca
um mundo belo e risonho.

Em toda a vida eu suponho
que nada existe mais belo
que ver o real e o sonho
postos num feliz duelo.

O sonho se faz real,
o real em sonho se faz,
e se dá o festival
da completa humana paz.

Deusana é o quanto de humana
pode ser uma pessoa;
só uma Deusana é Deusana,
a que São João abençoa.

Qualquer um de nós, contente,
percebe, em tom solidário,
que ela mesma é que é o presente
de seu próprio aniversário.

Nós somos presenteados
por sua dádiva imensa,
por seus preciosos dados
de alegria e fé e crença.

Pois aniversariantes
somos todos, nesta data,
solidários e constantes,
com nossa presença grata.

Uma fogueira ilumina
a alma de todos nós,
na celebração junina,
cantada numa só voz.

Não esqueçamos também
que em São João também se come
e se bebe o que convém
tanto à sede quanto à fome.

E há o que entra pela boca:
bolo, canjica, pamonha,
pois ninguém tem fome pouca
nem vive só do que sonha.

Festejemos a alegria
desta data e deste mês,
pois só se aniversaria,
em cada ano, uma vez.

Junho é mês de muitos santos,
João, Pedro, Antônio, Marçal,
e os benefícios são tantos
que o mês é celestial.

É o mês que divide o ano
em suas duas metades,
mas une o sentido humano
que reina nas amizades.

E o dezenove de junho,
data jamais esquecida,
traz um bem que testemunho
como uma glória da vida.

Deusana louve São João,
louve São Pedro também;
bênçãos dos dois cairão
sobre nós todos. Amém.



Poema inédito








fontes:imagem
http://www.educadora560.com.br


http:www.abril.com.br

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Cigarra e formiga - antifábula

................................................................................
Fala-se mal da cigarra,
fala-se bem da formiga,
pois que uma canta e farra
e outra em labor se fatiga.

Diz-se que uma só gasta,
e a outra guarda o que tem,
e em sua riqueza vasta
não quer ajudar ninguém.

É uma história que se narra,
sem graça, de tão antiga,
e nela nem a cigarra
se envolve, nem a formiga.

Ambas nada têm com isso
que seu La Fontaine inventa,
com um fundo moral cediço
de uma fábula odienta.

Cada qual cumpre a missão
que lhes deu a natureza;
nada têm com o que dirão
contra a cigarra indefesa.

Querem por força lançar
cigarra contra formiga,
a fingir-se um falso ar
de tradição inimiga.

Cigarra e formiga juntas
vivem, dando o que falar,
mas não respondem perguntas
de um mundo raso e vulgar.

Elas estão muito acima
do que nossa vida engana,
e nenhuma se aproxima
de nossa atitude humana.

Não é com cigarra alguma
nem com formiga qualquer
que alguém, a seu modo, assuma
a tolice que quiser.

Sem nunca cometer falha,
sem descuidar-se um instante
é que a formiga trabalha
para que a cigarra cante.

O canto é tão necessário
quanto o labor. E entre os dois
não se sabe, em seu fadário,
quem vem antes ou depois.

O homem, com braço e garganta,
suaviza a sua batalha,
e trabalha, enquanto canta
e canta, enquanto trabalha.

O canto é irmão do labor
e, irmãos, se dão por completos,
jamais iriam propor
uma disputa de insetos.

Deixe-se a cigarra em paz,
deixe-se em paz a formiga,
e seja o homem capaz
de amar trabalho e cantiga.

Não há povo que não cante
nem povo que não trabalhe,
e a poesia é reinante,
no todo em cada detalhe.
..................................................................................
Poema inédito

sábado, 23 de maio de 2009

Canção Cigana

José Chagas

Quem pelo mundo se erra
e morre e nasce de novo
é filho de cada terra
e é filho de cada povo.

Quem pelo mundo se vai,
sem ter ninguém que o acompanhe,
de si mesmo se faz pai,
de si próprio se faz mãe.

E quem pelo mundo a esmo
gira e só em si é completo
torna-se irmão de si mesmo
ou é de si mesmo neto.

Assim conduzo a família
latente em mim mesmo, e ponho
a casa e toda a mobília
no seguro do meu sonho.

(Do livro Lavoura azul)

Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com

terça-feira, 19 de maio de 2009

Fragmentos do livro Portugal (Discurso em Versos) - José Chagas



1

Portugal, tu és história
e também poesia pura.
A tua perene glória
te renova e reinaugura.

És tão velho quanto novo,
tão de ontem como de agora,
para a alegria de um povo
que te vive e rememora.

Teu passado está presente
na alma de todos nós,
como algo que se alimente
nos manes de teus avós.

...............................................................

2


Passaram tempos e vidas,
passaram sonhos e nomes:
sombras ficaram contidas
nas lembranças que consomes.

Foram-se embora teus reis,
teus heróicos navegantes,
e hás de ser mais português
agora do que eras dantes.

.......................................................




Foi-se a fase transitória.
buscas agora o eterno,
dentro de tua vanglória,
por entre o antigo e o moderno.

E hás de seguir tua esteira
de navegação infinda;
descobriste a terra inteira,
não te descobriste ainda.

..........................................................


4

Ó eterno enamorado
das ondinas e sereias,
pondo o teu mundo encantando
na crista das marés cheias.

Pois tua glória era mar
e não as terras estranhas,
que sempre ousaram negar
tuas lendárias façanhas.

O mar foi o teu troféu,
o teu caminho seguro;
só entre as águas e o céu
pôde caber teu futuro.

Só o horizonte se abria,
no azul de sua razão,
para essa imensa ousadia
a que só os heróis se dão.

Correste terras e mares
num vagar revelador,
e os teus numes seculares
levaram-te além da dor,

levaram-te além do sonho
ou do próprio pesadelo,
que o mar quanto mais medonho
mais tu sabias vencê-lo.

Entre alegrias e mágoas,
só o mar te pertenceu
e só no espelho das águas
fitaste o destino teu,

como orgulhoso narciso
a achar que, em sua visão,
navegar era preciso,
mas viver era que não.

Navegar por navegar,
que essa é a maior descoberta:
descobrir o próprio mar,
que atrai, assusta e liberta.


.....................................................................


Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com

sábado, 16 de maio de 2009

Olhos azuis

José Chagas

Os teus olhos azuis não eram mais
do que os olhos azuis de uma mulher.
No entanto, eu nunca vi olhos iguais,
nem esse azul era um azul qualquer.

Não sei se, sendo azuis, eram fatais
como os abismos, e nem sei sequer
como os teus olhos, sendo dois cristais,
podiam ser dois olhos de mulher.

Só sei que esses teus olhos são ainda
uma lembrança azul que não se finda,
como a distância em forma de um adeus.

E o mais que eu sei é não lembrar-me agora
de quantas vezes me perdi na aurora
desse infinito azul dos olhos teus.


(Poema inédito)
___________

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Águas do silêncio - José Chagas

José Chagas

XIV

Falar de amor talvez não adiante,
que mais faz pelo amor quem silencia,
quem sabe o que no amor a todo instante
se esconde numa dor, numa alegria,
mas guarda esse segredo, confiante
de que o sonhar do amor no amor se cria
e assim quem cala o seu amor garante
no silêncio do amor a fantasia
que dá sustento às ilusões, durante
o tempo todo em que no amor confia,
e confiando goza a delirante
força de amar no amor sua agonia,
feito um magoado e solitário amante
que se assim não amasse morreria.

(Do livro Águas do silêncio)

___________

Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O novo Adão - José Chagas

Já sem paletó,
o homem desata
o vaidoso nó
e sua gravata.

A calça, a camisa,
a cueca, a meia,
o que lhe ameniza
a figura feia,

tudo o homem tira
para libertar-se
de sua mentira
ou de seu disfarce.

No monte de roupa
de que se desfez,
fica o que não poupa
de sua nudez.

Agora ele é
um bicho peludo,
exibindo em pé
seu porte desnudo.

Agora ele sente
que é forte e que é fraco,
tendo um quê de gente
e um quê de macaco.

Agora ele nota
quanto de animal
revela a marmota
de seu ritual.

E nem sequer sonha
nesse gesto cru
com a antiga vergonha
de saber-se nu.

O Adão que ele era
morreu indeciso,
na perdida esfera
de seu paraíso.

E é em vão que hoje colha,
numa ação primeira,
a última folha
da antiga parreira.

Poema inédito

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Poemas - José Chagas

(...)
2

Me fiz
de amor:

raiz
de dor.

Me fiz
Luz:

raiz
de cruz.

Me fiz
de pó:

raiz
de só.

Me fiz
de mim:

raiz
de fim.

Agora esqueço
de que me fiz,
que alto é o preço
de ser feliz.

(Do livro Lavoura azul)
___
Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com