De Deus não se sabe nada
e é melhor mesmo que não.
Deus não é coisa ensinada
por qualquer religião.
A fé é que cria Deus,
não é Deus que cria a fé,
e a crer nos mistérios seus,
Deus não existe, Deus é.
É... para quem nele creia,
não é para o que é ateu,
que Deus não planta na areia
o grão dos poderes seus.
Por entre flores e lodos,
entre perfume e bodum,
Deus semeia para todos,
mas não para cada um.
Porque sempre há os que pensam
que Deus é dúbio em seu dom,
que Deus é castigo e bênção,
e é tão ruim quanto bom.
É pau para toda obra
e se faz dele o que quer,
mas ora falta, ora sobra,
nas mãos de um cristão qualquer.
Ao que parece é que Deus
não é para todo dia;
cansado dos fariseus,
às vezes se refugia.
Ou parece que descansa,
desde quando fez o mundo
e deixou para a esperança
o trabalho mais profundo.
Xxx
Poema inédito
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domingo, 28 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Cigarra e formiga - antifábula
................................................................................
Fala-se mal da cigarra,
fala-se bem da formiga,
pois que uma canta e farra
e outra em labor se fatiga.
Diz-se que uma só gasta,
e a outra guarda o que tem,
e em sua riqueza vasta
não quer ajudar ninguém.
É uma história que se narra,
sem graça, de tão antiga,
e nela nem a cigarra
se envolve, nem a formiga.
Ambas nada têm com isso
que seu La Fontaine inventa,
com um fundo moral cediço
de uma fábula odienta.
Cada qual cumpre a missão
que lhes deu a natureza;
nada têm com o que dirão
contra a cigarra indefesa.
Querem por força lançar
cigarra contra formiga,
a fingir-se um falso ar
de tradição inimiga.
Cigarra e formiga juntas
vivem, dando o que falar,
mas não respondem perguntas
de um mundo raso e vulgar.
Elas estão muito acima
do que nossa vida engana,
e nenhuma se aproxima
de nossa atitude humana.
Não é com cigarra alguma
nem com formiga qualquer
que alguém, a seu modo, assuma
a tolice que quiser.
Sem nunca cometer falha,
sem descuidar-se um instante
é que a formiga trabalha
para que a cigarra cante.
O canto é tão necessário
quanto o labor. E entre os dois
não se sabe, em seu fadário,
quem vem antes ou depois.
O homem, com braço e garganta,
suaviza a sua batalha,
e trabalha, enquanto canta
e canta, enquanto trabalha.
O canto é irmão do labor
e, irmãos, se dão por completos,
jamais iriam propor
uma disputa de insetos.
Deixe-se a cigarra em paz,
deixe-se em paz a formiga,
e seja o homem capaz
de amar trabalho e cantiga.
Não há povo que não cante
nem povo que não trabalhe,
e a poesia é reinante,
no todo em cada detalhe.
..................................................................................
Poema inédito
Fala-se mal da cigarra,
fala-se bem da formiga,
pois que uma canta e farra
e outra em labor se fatiga.
Diz-se que uma só gasta,
e a outra guarda o que tem,
e em sua riqueza vasta
não quer ajudar ninguém.
É uma história que se narra,
sem graça, de tão antiga,
e nela nem a cigarra
se envolve, nem a formiga.
Ambas nada têm com isso
que seu La Fontaine inventa,
com um fundo moral cediço
de uma fábula odienta.
Cada qual cumpre a missão
que lhes deu a natureza;
nada têm com o que dirão
contra a cigarra indefesa.
Querem por força lançar
cigarra contra formiga,
a fingir-se um falso ar
de tradição inimiga.
Cigarra e formiga juntas
vivem, dando o que falar,
mas não respondem perguntas
de um mundo raso e vulgar.
Elas estão muito acima
do que nossa vida engana,
e nenhuma se aproxima
de nossa atitude humana.
Não é com cigarra alguma
nem com formiga qualquer
que alguém, a seu modo, assuma
a tolice que quiser.
Sem nunca cometer falha,
sem descuidar-se um instante
é que a formiga trabalha
para que a cigarra cante.
O canto é tão necessário
quanto o labor. E entre os dois
não se sabe, em seu fadário,
quem vem antes ou depois.
O homem, com braço e garganta,
suaviza a sua batalha,
e trabalha, enquanto canta
e canta, enquanto trabalha.
O canto é irmão do labor
e, irmãos, se dão por completos,
jamais iriam propor
uma disputa de insetos.
Deixe-se a cigarra em paz,
deixe-se em paz a formiga,
e seja o homem capaz
de amar trabalho e cantiga.
Não há povo que não cante
nem povo que não trabalhe,
e a poesia é reinante,
no todo em cada detalhe.
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Poema inédito
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Tabuada de memória - José Chagas
.......................................................................................................
O mundo era assim um misto
de poesia e lavoura
e eu não sabia que isto
ia ser missão vindoura.
Havia no vôo das aves
qualquer coisa de mistério,
como segredos suaves
falando de um sonho aéreo.
E com meus olhos de infância
quantas vezes vi a vida
num sonho azul de distância
toda de paz revestida.
Tudo era azul nesses dias,
o céu, as flores, o ar
e as borboletas vadias
que eu não podia pegar.
Eu tinha esse azul por dentro
de mim mesmo como um sonho
que depois se fez o centro
de verve de que disponho.
Azul era nossa paz
feita horizonte de anil
cingindo o longe por trás
do meu sonhar infantil.
Todo azul era o infinito
que de tão azul doía,
ante o nosso olhar contrito,
no clarão no meio-dia.
Azul era o mês de maio,
de ladainhas e festa,
novenas que hoje ensaio
com o azul que ainda me resta.
Azul era a água mansa,
quando em meus sonhos eu pude
imaginar em criança
um mar azul no açude.
E mesmo a paisagem franca
que se destacava ao sul
se chamava serra branca
e em vez de branca era azul.
Azul era tudo quanto
coloria a vida em torno,
pois sempre o céu foi um manto
que o sertão tem como adorno.
E a infância assim dividida
entre labor e poesia,
reinava então na medida
em que o sonho a repartia.
........................................................................................................
(Trecho do livro Tabuada de memória)
_____________
Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com
O mundo era assim um misto
de poesia e lavoura
e eu não sabia que isto
ia ser missão vindoura.
Havia no vôo das aves
qualquer coisa de mistério,
como segredos suaves
falando de um sonho aéreo.
E com meus olhos de infância
quantas vezes vi a vida
num sonho azul de distância
toda de paz revestida.
Tudo era azul nesses dias,
o céu, as flores, o ar
e as borboletas vadias
que eu não podia pegar.
Eu tinha esse azul por dentro
de mim mesmo como um sonho
que depois se fez o centro
de verve de que disponho.
Azul era nossa paz
feita horizonte de anil
cingindo o longe por trás
do meu sonhar infantil.
Todo azul era o infinito
que de tão azul doía,
ante o nosso olhar contrito,
no clarão no meio-dia.
Azul era o mês de maio,
de ladainhas e festa,
novenas que hoje ensaio
com o azul que ainda me resta.
Azul era a água mansa,
quando em meus sonhos eu pude
imaginar em criança
um mar azul no açude.
E mesmo a paisagem franca
que se destacava ao sul
se chamava serra branca
e em vez de branca era azul.
Azul era tudo quanto
coloria a vida em torno,
pois sempre o céu foi um manto
que o sertão tem como adorno.
E a infância assim dividida
entre labor e poesia,
reinava então na medida
em que o sonho a repartia.
........................................................................................................
(Trecho do livro Tabuada de memória)
_____________
Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Lavoura azul
Trabalho nuvens como quem trabalha
o chão que é seu, mas eu não tenho chão.
Cultivador da natureza falha,
planto no azul o que de azul me dão.
Sobre o campo de nuvens cresce a palha
do sonho e cobre a minha solidão.
E esse abrigo de sonhos me agasalha
contra os falsos azuis que vêm e vão.
Minha roça no ar produz estrelas,
mas eu não tenho mãos para colhê-las,
nesta safra de azul que é nova e antiga.
Sou lavrador do quanto não se lavra
e é preciso que eu ceife na palavra
o maduro do azul e a sua espiga.
Poema extraído do livro Lavoura azul
___________
Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com
o chão que é seu, mas eu não tenho chão.
Cultivador da natureza falha,
planto no azul o que de azul me dão.
Sobre o campo de nuvens cresce a palha
do sonho e cobre a minha solidão.
E esse abrigo de sonhos me agasalha
contra os falsos azuis que vêm e vão.
Minha roça no ar produz estrelas,
mas eu não tenho mãos para colhê-las,
nesta safra de azul que é nova e antiga.
Sou lavrador do quanto não se lavra
e é preciso que eu ceife na palavra
o maduro do azul e a sua espiga.
Poema extraído do livro Lavoura azul
___________
Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Lavoura azul
JOSÉ CHAGAS
[POR TRÁS DO POEMA]
Por trás do poema
não se respira
Ventos se quebram
rolam onde o chão trabalha
um verde de outra cor
Por trás do poema
devemos estar mortos
inoticiados
Palavras emigram
vão para o labor de espessas
emoções
Por trás do poema
as chuvas se gastam
gastam-se os vôos os frutos
a alegria branca das praias
O tempo inicia seus escombros
por trás do poema
Uma rua de estátuas
cai sua cinza
cai o seu nada
de muitos séculos
E um rio em si mesmo se afoga
seca em suas areias
a vontade de mar
Não olheis nunca por trás do poema
podem vossos olhos
em sal tornar-se
Correção: poema acima é de Os canhões do silêncio e não de Lavoura azul
Para adquirir o livro entrar contato com email:
deusanachagas@gmail.com
[POR TRÁS DO POEMA]
Por trás do poema
não se respira
Ventos se quebram
rolam onde o chão trabalha
um verde de outra cor
Por trás do poema
devemos estar mortos
inoticiados
Palavras emigram
vão para o labor de espessas
emoções
Por trás do poema
as chuvas se gastam
gastam-se os vôos os frutos
a alegria branca das praias
O tempo inicia seus escombros
por trás do poema
Uma rua de estátuas
cai sua cinza
cai o seu nada
de muitos séculos
E um rio em si mesmo se afoga
seca em suas areias
a vontade de mar
Não olheis nunca por trás do poema
podem vossos olhos
em sal tornar-se
Correção: poema acima é de Os canhões do silêncio e não de Lavoura azul
Para adquirir o livro entrar contato com email:
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